sábado


Há dezanove anos atrás principiava a mais árdua das minhas tarefas, a maternidade. A capacidade de amar um filho é realmente inesgotável mas não é obra fácil criar, educar e orientar.

Sem manual de instruções, eis algumas condições e técnicas utilizadas:

  1. muita comida (mama e suplementos);
  2. sono leve e frequentemente interrompido (primeiro gases, rompimento dos dentes e agora, saídas à noite, idas e vindas da discoteca);
  3. castigos nas birras (proibidos os supermercados e lojas de brinquedos);
  4. imposição de regras de conduta;
  5. dedicação (leitura de histórias, passeios, brincadeiras no parque e no banho);
  6. renúncia, por muito tempo, a actividades como tirar o buço, bronzear-se, ler um livro e ir ao cinema para ver um filme para maiores de 6 anos;
  7. muito amor; segurança afectiva diária (beijos e abraços apertados, ver com ele os Simpsons e assistir a vídeos no Youtube sobre temas do seu interesse mesmo que não nos digam nada);
  8. updates regulares ao nível da cultura geral (nomeadamente conhecimentos de música); é importante ser vista pelo filho como uma mãe moderna;
  9. tolerância (a partir da adolescência não esperar telefonemas ou mensagens que não visem a satisfação das suas próprias necessidades, como por exemplo, informar que vai ficar sem saldo no telemóvel ou que precisa de roupa nova, às vezes rota);
  10. procurar estar presente no seu dia-a-dia, mesmo na maioridade, conhecer as suas inquietações e dar conselhos, mesmo sabendo que não serão seguidos por não fazerem sentido para ele. 
Creio que errei em alguns momentos e acertei em outros. A aprendizagem tem sido mútua. As emoções vividas, más e boas, têm um carácter construtivo.
O amor mantém-se incondicional e preparado para ser um abrigo e um curativo no caso de algum dos seus voos correr menos bem.
Parabéns filho!

quinta-feira

Fui lá fora ver de mim.
Encontrei-me por entre flores de cor lilás, como as que trazíamos apertadas entre os dedos, lembras-te?
Vejo-me segura num dos teus braços a fazer o mesmo caminho, aquele que conhecíamos de cor, que nos aceitava os pés sem queixume.
Não pai, não tinha voltado aqui. Faz muito tempo que não colho flores.
Apesar de terem passado tantas Primaveras, a nossa trilha continua igual, brava e acolhedora.
Aconselhas-me onde pisar e eu, confiante nas tuas palavras, persigo as flores como borboleta ávida de colo, o teu colo.
Vai nascendo o dia e eu tenho que ir.
Não levo nada nas mãos.

A jarra não faz sentido.

terça-feira


Foram as minhas mãos que seguraram as tuas para te ajudar nos primeiros passos. Confiavas nos meus dedos como se fossem fortalezas e eu aninhava-me nos teus, mesmo sem caber, alimentando a minha alma a cada beicinho ou gargalhada. Era no meu colo que limpavas as lágrimas e curavas as birras. Quando me tocavas o rosto com as mãos pequeninas, eu abria-me ao mundo e, ao mesmo tempo queria proteger-te do mesmo, que vai ser teu, que vais conquistar com os teus sonhos, com os teus passos de homem.

Vieram as hormonas, as borbulhas e um tamanho que me obriga a erguer os olhos para te beijar o rosto.
Agora, é a minha mão que procura a tua mas tu preferes envolver-me os ombros com um dos teus braços.
Hoje sou eu quem dá os primeiros passos na tua adolescência e os mais pequenos para acompanhar o teu 1,80m. Os teus vão largos e apressados.
Caminhas a meu lado e dizes:
- és tão pequenina, mãe!

Não queria ver destapado o ninho. Queria ainda que olhasses para mim e me pedisses colo, que não tivesses pressa em voar. Não te posso prender as asas se o voo te faz feliz. Resta-me sorrir, dizer-te que os teus primeiros saltos foram quase perfeitos e amparar-te no desequilíbrio.
Resta-me pedir-te que caminhes mais devagar e que esperes por mim.

quinta-feira

Guardei-me com as palavras que escondi para te dar. Abro-as e leio-as de lábios cerrados para as manter inteiras, com o cheiro e o sabor com que as guardei. Peço-lhes que esperem como eu, espreitando o caminho que hás-de fazer para chegar.
Ponho um brilho nos olhos e alindo-me inquieta.
Amo-te quando em largo, alto e profundo minha alma alcança quando, transportadamente, alongando os olhos deste mundo os fins do ser, a graça estremunhada.
Amo-te em cada dia, hora e segundo: à luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo quanto o pudor dos que não podem nada.
Amo-te com o doer das velhas penas, com sorrisos, com lágrimas de prece, e a fé da minha infância, ingénua e forte.
Amo-te até nas coisas mais pequenas. Por toda a vida.
E assim Deus o quisesse, ainda mais te amarei depois da morte.

"Elizabeth B. Browning"

Quando os meus lábios te alcançarem, diz-lhes baixinho que vieste para ficar. Pede-lhes que soltem as palavras quentes que esperam por ti.
Se os meus lábios de repente te encontrarem, fecha-me os olhos e toma-os como teus.Não percas tempo a anunciar-te, pois eu saberei que chegaste.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
Uns olhos como todos os outros.(...)
Não temos nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

"Eugénio de Andrade"

Gosto de te inventar e render-me à memória dos teus olhos.
Entrego-me à ilusão de palavras e gestos que não nasceram ainda mas que serão eternos. Então, quase te sinto a pele quando me finjo acolher nos teus braços. E sempre que me despeço de ti, faço-o devagar, com as pontas dos dedos, sem pressa.

Aluguei-te um quarto de mim e abri-lhe uma janela virada ao sol.
Queria partilhar contigo todos os meus cantos. Queria que aí vivesses como se fosses um dos meus ossos, a coluna, por ser o eixo do corpo.
Vieste de visita. Deixaste um sorriso, aquele que condizia com os teus olhos e que me chamou mulher.

Gosto do sabor de algumas letras. Gosto das que tocam mais na língua, das que se soltam devagar para cair em outra boca.
Gosto das que avermelham os lábios, das que embebedam o corpo, segredam suspiros e sustêm a respiração.
Gosto até das que nunca disseste. Não lhes conheço o gosto, mas adivinho-as... macias, doces.
Namoro muitas vezes, estas que te escrevi. Seguro-as entre as mãos e beijo-lhes delicadamente os lábios com a doçura da primeira vez.
Em silêncio e de olhos fechados sinto-as caminhar na pele, quentes, lânguidas, como mãos numa descoberta insaciável.


Tenho-te menina como se o tempo tivesse ficado lá atrás. Lembro a mão pequenina que não soltava a minha e que me fazia grande. As gargalhadas que nos iludiam os sonhos e os momentos que partilhámos, bons e maus, tenho-os todos guardados para não perder a minha história.
Guardo-te em mim para me ter sempre à mão, para me lembrar quem sou e me fazer sentido. Guardo-te em mim porque foi por ti que resisti.
Quero resgatar-me! Vestir-me de luz, banhar-me em doces aromas, talvez de amoras e mel.
Sinto-me leve neste vestido de mulher.
Quis pintar de azul mas escrevi a preto algumas linhas, num papel já gasto. Não sequei as palavras que se esvaíram, talvez para não serem vistas ou lidas por alguém que as não entenda.
Eu mesma que as escrevo e leio nem sempre lhes encontro sentido, apenas lhes guardo os segredos e as escondo dos olhos dos outros.
Nestas palavras abstractas e esborratadas de negro só encontro veias. Sinto-as perdidas, não sei se do papel, se de mim!
Em cada recanto da minha memória encontro pedaços de pele cansada, de uma criança apagada, de um tempo em que não existi.
Recordo lágrimas e medos. Lembro-me escondida por entre letras e histórias que eu própria criava para me mimar. Lembro a ausência de um abraço materno e as amarras a um outro porto que nunca foi abrigo.
Falo do amor que não se divide, que não se troca mas que se dá inteiro. Este amor que é mais que bem querer e que não cabe no corpo, não pode ser traduzido nem se explica desenhando.
Chegou pequenina! Inundou-me a vida pintando-a de rosa leve, enchendo-a de sons que eu desconhecia.
Mirava-lhe os pequenos olhos castanhos, sempre atentos aos movimentos das minhas mãos que tentavam tocar-lhe. Apressava-lhe o sono. Queria que me visse, queria provocar-lhe a linguagem indecifrável e sorrir-lhe.
Por ela perdi medos e dúvidas. Por ela lutava com o mundo, se preciso fosse.
O meu outro amor chegou-me de dentro, batendo devagarinho e em silêncio. 
Senti-o pela primeira vez entre as duas margens do Tejo.
Veio ao mundo por entre batas verdes, lágrimas e emoções, e ao recebê-lo no colo rendi-me a um amor que acabava de chegar em tons de azul celeste.
– É lindo!
E como foi bom ouvir-lhe as primeiras palavras e assistir aos primeiros passos.
Todos os dias cresce um bocadinho. Ouço-o agora falar dos seus “pequenitos“ amores, desta fase de pré-adolescência, como ele mesmo a intitula.
Não queria que crescesse com tanta pressa mas o tempo não abranda e ele lá vai fazendo conquistas no mundo dos “grandes”.

São estes os amores que seguro nos braços! É este o amor que não divido e que lhes dedico sem qualquer condição.
E tudo isto a minha mãe deveria ter sentido por mim!

Há sorrisos de criança interrompidos em ruas e bairros escuros, por detrás de janelas com cortinas pálidas e envelhecidas.
Há sorrisos de criança empoeirados de desamor e palavras frias.
Findas as brincadeiras cresce-lhes a alma para além do corpo, às vezes magoado, invadido, roubado à infância.
Não se ouvem pedidos de ajuda e ninguém os percebe no olhar triste que a vida amadureceu.
Quem a fará sorrir de novo?
Quem a fará crer no mundo dos homens grandes, nesse mundo de mãos duras que apertam, que sufocam a gargalhada inocente?

quarta-feira


Pai, trago treze anos já crescidos de alma num corpo franzino e intimidado.
Partilhas comigo os teus receios e angústias como se fôssemos do mesmo tamanho. Falas-me deles, e eu, que os conheço por dentro, ouço-os de ombros encolhidos e agacho as minhas lágrimas para ser maior aos teus olhos.Também sinto medos e não tenho coragem de tos contar. Algumas vezes senti vontade de abrir as mãos e mostrar-te o que guardam, as marcas na pele que se colaram como tinta de carimbo. Mas como explicar-te que não conseguiste proteger-me mesmo querendo-me tão bem?
Fico quieta e dou-te apenas um abraço.
Agora já pouco importa. Pedi-te que não fosses, mas o teu tempo não esperou. E, com a cabeça entre as mãos e os olhos cerrados tentei fugir da sensação de atropelo que sentia nos ossos naquele dia frio de Novembro. Doíam-me todas as ideias e todas elas corriam em direcção a um estômago retraído de desespero. 
Este desencontro entre o teu tempo de vida e a minha adolescência deixou-me uma revolta que teimou em ficar. Hoje, tantos Novembros depois, a alma continua vincada, às vezes doída e mais velha que eu. Nunca a consegui despir.